- Não se despreza documentos oficiais ou fontes fidedignas para garantir a credibilidade; em matéria de História jamais poderá prevalecer à lei do menor esforço, o que hoje é uma verdade amanhã pode ser contestada.

A busca por fatos, informações, a pesquisa, reconhecer a qualidade no esforço e trabalho de terceiros, transformam o resultado em um caminho instigante e incansável na busca pela verdade.

Dividir estas informações e aceitar as críticas é uma dádiva para o pesquisador.

Este blog esta sempre em crescimento, qualquer texto, informação, imagem colocada indevidamente, dúvida ou inconsistência na informação, por favor, me comunique, e aproveito para pedir desculpas pelo inconveniente.

(Consulte a relação bibliográfica).

jpmulller@gmail.com

Bem Vindo

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Lembranças

Para Saber, ou Não.

Saber e Lembrar.

Em 1937, Ary Pereira Oliveira, nascido em 06/12/1914, foi Desembargador e Presidente do Tribunal de Justiça de Santa Catarina no período de 01/03/1976 a 01/03/1978.
Sendo Ele o primeiro presidente do Tribunal que se formou na Faculdade de Direito de Santa Catarina, que hoje faz parte hoje da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), ele um dos dezoitos alunos formados na Primeira turma que aquela faculdade em 1937.

Em 20 de fevereiro de 1948, 09h00min, procedeu-se ao assentamento da pedra fundamental do Monumento Comemorativo ao Centenário da Imigração Açoriana em Santa Catarina, que foi levantado, no jardim Oliveira Belo em frente a Prefeitura municipal. Depois de vários discursos, como o do prefeito Adalberto Tolentino de Carvalho e do deputado e professor Dr Osvaldo Rodrigues Cabral.
Leu-se a ata da comemoração.
No enceramento colocou-se em uma caixa metálica, esta ata, com outros documentos concernentes a comemoração, com o jornal do dia e algumas moedas em curso.
A caixa foi devidamente fechada, pelo Prefeito Municipal e sob aplausos da assistência, colocaram na fundação do Monumento.

De 1947 à 1951, governou o estado de Santa Catarina Aderbal Ramos da Silva.
Foi o único Governador a nascer no Palácio Rosado, quando seu avô (Vidal Ramos) era o governador.

Artista Bitencourt, Manoel da Silveira Bitencourt, era apenas um simples sapateiro, mas um homem de Grande valor.

Em 1848, era obrigatório usar alguma substância gordurosa nos eixos das carroças para evitar o chiamento (barulho).

Em 1857, era expressamente proibido tomar banho de mar, principalmente as mulheres.

Da encosta do Boa Vista (Menino Deus) descia um córrego. Talvez tenha sido este o retratado na tela de KRUSENSTERN em 1803.

Em 1831, um boato alarmou a capital, pois diziam que as torres da igreja São Francisco, na atual Rua Trajano, estavam por ruir.

O Forte Santa Bárbara e o quartel do Campo do Manejo já serviram para tudo, desde Hospital até Salão de Baile.

Os lazaretos daqui na ilha foi no Forte São Francisco (praia de fora) Ilha dos Guarás (baia norte), Forte Santo Antônio (ratão grande) sendo este o mais usado

Em 23 de novembro de 1853, surge o primeiro livro editado na cidade de Desterro “MEMÓRIA HISTÓRICA DO EXTINTO REGIMENTO DE INFANTARIA DE LINHA DA PROVINCIA DE SANTA CATARINA”, do major Manoel Joaquim de Almeida Coelho.

A esposa do Governador Francisco de Souza Menezes, Dona Caetana, era uma amante da música. E para sua casa convergiam os cantadores de modinha.
Dizem até que os soldados Amaral e Saraiva eram assíduos freqüentadores do Palácio. Tanto é que quando o governador Souza de Menezes deixou o governo, presenteou os dois soldados com um sitio na lagoa da conceição.

Em 31 de Maio de 1854, foi criada a Biblioteca Pública através da Lei 373, sendo seu primeiro diretor Francisco de Paula Marques.

O Regimento Barriga-Verde passou mais tempo defendendo o solo Rio Grandense (Gaúcho) que o solo de sua terra natal.

Em 1791, o primeiro brasileiro nato a governar a Província de Santa Catarina (atual estado), foi o coronel Manoel Soares Coimbra.

Em 1839, o Forte São Luiz e o Forte São Francisco foram vendidos em Leilão público pela quantia de 202$000 réis, este valor não pagava nem as “CANTARIAS” dos seus portões.

O primeiro efetivo de nossa Polícia Militar contava com apenas 52 homens.

O Padre Paiva escreveu esta quadra para o Poeta do Brejo

"Que lá no Ribeirão, Gulosa Abelha
Da taverna os copinhos namorava
Puxando, Mandrião, da sota a orelha?
Não conheces? Pois é de Costa Brava
Filho do Bicho, Genro do Savelha
Que de tal Pai, tal filho se espera"

As "mulheres" ou companheiras de Padres tinham a crendice de origem medieval de que quando morriam virariam MULA-SEM-CABEÇA.

O ouvidor de Paranaguá ANTONIO ALVES LANHA PEIXOTO esqueceu de rubricar o livro de Criação da Vila de Nossa Senhora do Desterro, achamos que tinha muita pressa em sair daqui da ilha.

Em 1786, era exportado da ilha de Santa Catarina “Anis” (O anis ou erva-doce (Pimpinella anisum) é uma planta da família das Apiaceae, anteriormente chamadas Umbelliferae. A sua fruta em forma de semente é usada em confeitaria e em licor (como anisete, zammù, uzo). A fruta consiste em dois pistilos unidos e tem um sabor aromático forte e um odor poderoso. A semente de anis também é usada em alguns caris e pratos com frutos do mar, contra mau hálito e como ajudante digestivo).

O quartel do Campo do Manejo custou aos cofres públicos a bagatela de 600$000 réis.

O primeiro Ouvidor da Província que nasceu aqui na ilha foi LUIZ CARLOS MUNIZ BARRETO de família pouco abastada. Doutorou-se em Magistratura no Colégio dos Nobres em Lisboa.

Em 1845, o Imperador Dom Pedro II esteve na ilha, também visitou as Vilas de São José e as Caldas do Cubatão

Em 09, 10 e 11 de março de 1838, um grande Pampeiro (tempestade) causou grande estrago na ilha e no continente fronteiriço. O governo Imperial mandou repartir 40$000 réis entre os habitantes. Aqui na ilha só chegaram 20$000 réis e a população nada recebeu.

No palácio Cruz e Souza existem 2 estátuas em sua fachada MERCÚRIO (Deus do Comercio) e ANFITRITE sintetizando o gosto pelo mar.

Por volta de 1900, existia aqui na Ilha:

1 Fundição de Pontas de Carl Hoepcke & Cia
2 Fabrica de Peixe em lata
3 Fábrica de Cerveja
1 Fábrica de Sabão e Vela
1 Fábrica de Massas Alimentícias
1 Engenho a Vapor

A pedra grande (agronômica), por sua situação longínqua, já tem aspecto de freguesia.

Em 16 de novembro de 1780, morreu Dona Joana de Gusmão aos 90 anos.

Existia uma rua que ia até Detrás dos Morros (Trindade) pelo Morro do Pau da Bandeira.

O antropólogo Português Coutinho andou pelo Brasil estudando os KJÖKKENMÖDDINGS (restos de Cozinha).

Em 1815, em Viena (Áustria), a Inglaterra ainda não satisfeita de reclamar para si a ilhas da Madeira, também queria a Ilha da Santa Catarina, no sul do Brasil.

O Morro do Padre Doutor (lagoa da conceição) tem 450 m.

A denominação de Ingleses (Praia) possivelmente vem de:

"Uma barca desta Nacionalidade que aí varou, com uma lestada (vento leste), em fim 1799. Essa embarcação, segundo dizem, viera tocada e com água aberta do mar alto e encalhou na praia em frente a ilhota Mata-Fome"

Em 22 de outubro de 1790, faleceu Dona Clara Manço casada com Francisco Antônio Branco, filha do Sargento-Mor Manoel Manço Avelar, morava em Santo Antônio de Lisboa e viveu 100 anos. Dizem que ainda existem nesta localidade alguns parentes desta senhora.

O Itacorubi fica entre a ponta do Sambaqui e a Ponta do Recife (extremo norte da ilha).
Nele deságuam 3 rios:
- Rio do Manoel Antônio,
- Rio do Bornelas,
- Rio do Lessa ou do Amorim, cuja a nascente é no morro do Padre Doutor,
(Nota: - Atualmente só existe 2 destes rios)

Em 1717, Sebastião da Veiga Cabral requereu a doação da Ilha de Santa Catarina, por ser ela “DESERTA e INABITADA”.

No governo de Pereira Pinto, tomou conta da Ouvidoria o primeiro FILHO DA TERRA, Dr. Luiz Carlos Muniz Barreto formado em Coimbra (Portugal).

João Vieira Tovar mandou edificar um hospital com quartos de Banho nas Caldas do Cubatão (atual Caldas da Imperatriz).

Quando D. Pedro I abdicou e deixou o Brasil surgiu esta quadrinha

"Seguiu viagem p'ra Europa
o nosso Pedro 'penaca'
deixando todo o Brasil
sem uma única Pataca"

Em 11 de agosto de 1831, foi distribuído o primeiro jornal da Província o “O CATHARINENSE”, presidido por Jerônimo Coelho. Tinha o formato 0,19 X 0,30.

Que nos tempos da Revolução Farroupilha cantavam estas quadrinhas:

"Garibaldi foi a missa
a cavalo sem espora
o cavalo tropicou
Garibaldi pulou fora"

"A mulher de Garibaldi
foi a missa sem balão
Garibaldi quando soube
quis morrer de paixão"

"Os farrapos já diziam
que Laguna era sua
vieram os caramurus
botaram eles p'ra rua"

A ilha das vinhas (frente ao José Mendes) era um depósito de combustível, mas antes disso o Senhor José Mendes plantou muita uva por lá.

Além das Fortalezas existentes atualmente o Marechal Cândido Caldas afirma que existiram os seguintes fortes:

Forte do Ribeirão - Ribeirão da ilha
Forte da Lagoa - Lagoa da Conceição
Forte Marechal Moura - Ponta dos Naufragados
Forte da Ponta do José Mendes - Ponta do José Mendes
Forte da Ponta do Rapa - Ponta do Rapa
Forte São Luiz - Praia de Fora
Forte São Francisco Xavier - Praia de fora
Forte São João - Continente(em frente ao Forte Sant'ana)
Forte São Caetano - Ponta Grossa

Existia na ponta do Leal um depósito de combustível com 3 grandes latões, o Texaco. Sempre vinham navios petroleiros descarregar.

O primeiro hotel do Estreito foi o Hotel Neves que ao lado tinha uma cocheira para guardar os cavalos dos hóspedes, ao lado do Cine Glória.

Em 1831, os botequins e as biroscas não abriam aos, para os homens não encherem a cara e fazer baderna nas ruas da cidade. domingos e dias santificados

Um suicídio singular foi do escravo do Sr Nicolau Izeto. Estava com o crânio desfeito por uma explosão, sem que existisse por perto qualquer arma de fogo. Sendo provável que o negro tenha enchido a boca de pólvora e tenha ateado fogo.

Uma mulher reclamou através de ofício ao governador que seu marido, ausente da ilha, vivia em concubinato com 2 escravas, donde tinha vários filhos. O governador mandou buscar o marido de volta e o obrigou a viver com a esposa.

Em Santo Antônio de Lisboa nasceu, entre outros o Padre Lourenço Rodrigues de Andrade, que foi um dos representantes do Brasil na corte de Lisboa.

Entre a Ponta do Rita Maria e do Estreito existe uma praia de 200 metros de extensão.

Em 1836, o Barão de Tefé escreveu as cartas hidrográficas das baías do Desterro.

Em 1746, foi erguida a Capela da Armação da Piedade, quando ali foi fundada a armação grande, por concessão a Tomé Gomes Moreira e mais 7 negociantes da praça de Lisboa (Portugal).

A Freguesia de Viamão (hoje RS) pertencia ao Distrito de Laguna (SC).

No governo de Souza de Menezes, diziam as más línguas que quem governava a capitania era o desembargador José Mascarenhas Pacheco Pereira de Melo, preso incomunicável em Anhatomirim.

Por esse tempo apareceu na Vila do Desterro um suposto peregrino, idoso, falando por alegorias, vindo de Cananéias. Atribuído de mandrião, Silva Paes mandou-o trabalhar nas obras de fortificações, algum tempo depois, em uma manhã, foi encontrado morto, com os joelhos em terra e as mãos levantadas para o céu.

Tocando na Ilha uma embarcação que levava numerários para o Rio Grande , o brigadeiro Silva Paes obrigou o condutor, mediante recibo a entregar o dinheiro e recolhe-o a provedoria. Pagou desse modo todo o nosso pessoal. O governador do Rio de Janeiro mandou o dinheiro novamente para o Rio Grande alegando naufrágio nas costas de Santa Catarina da primeira leva.

O primeiro moço a se apresentar como Voluntário da Pátria , para combater no Paraguai, foi Fernando Gomes Caldeira de Andrade.

Em 1880, a Assembléia Legislativa tratou da mudança da capital para o interior da Província na Vila de Lages.

Por decreto do Marechal Deodoro da Fonseca, o Segundo Tenente Lauro
Severiano Müller é o primeiro governador do estado de Santa Catarina.

De 1793 a 1814, o Regimento Barriga Verde foi fardado e calçado as suas próprias custas.

Os restos mortais do governador Hercílio Pedro da Luz, encontram-se junto a sua estatua no obelisco na cabeceira da ponte Hercílio Luz.

Com a morte de sua esposa, o governador Hercílio Pedro da Luz casou-se com sua cunhada (irmã de sua esposa). Ela era 26 anos mais nova que ele, o mesmo era padrinho de batismo dela.

O casarão que hoje é conhecido como o Santa Catarina Country Club foi a magnífica residência da família dos Carvalhos.

Em 31 de julho de 1893, na madrugada, no Palácio Cruz e Souza, numa tentativa de tomada do palácio morreram 3 pessoas, foi a única vez que morreu alguém no palácio por conflito.
Os mortos foram:- os civis Manoel Berlink da Silva e João Fonseca Povoa e o soldado da Força Publica José Gomes.

Em 1894, o coronel Luiz Gomes Caldeira de Andrade foi fuzilado na Fortaleza de Anhatomirim, por ordem do coronel Moreira César.
O coronel Luiz Gomes Caldeira de Andrade estava prestes a atingir o generalato. Era o primeiro na lista de promoções. O segundo nesta mesma lista era o coronel Moreira César.

A trinca da Folias de Reis era composta de RABECA, VIOLÃO, TAMBOR.

Em 1890, foi inaugurada a Praça da Praia de Fora (atual Praça Esteves Junior).

Em 1880, existia na capital:

08 praças,
47 ruas,
04 travessas,
08 becos,
08 igrejas ou capelas,
02 cemitérios (público outro luterano).

Em 06 de junho de 1949, um avião C47-Douglas da Força Aérea Brasileira, sob o comando do primeiro tenente Aviador Carlos Augusto de Freitas Lima, levantou vôo do Aeroporto Hercílio Luz e minutos depois chocou-se contra o Morro do Cambirela, matando 26 pessoas e até hoje ainda existe no local restos desta aeronave.

Em 10 de outubro de 1831, criou-se a Força Municipal, que se extinguiu em 05 de maio de 1835 quando foi criada a Força Pública.

Em 1819, a Marinha Mercante, que a principio era com barcos a vela, contou seu “primeiro barco à vapor”.

Onde hoje é quartel do Exército "Brigadeiro Silva Paes”, na Rua Almirante Lamego, foi uma antiga chácara do Sr. Edmundo da Luz Costa, mas em 1876, pertenceu a A. Carlos Ebel, depois veio a pertencer ao Sr. Molenda , em 1962 quando a Universidade Federal de Santa Catarina comprou este imóvel para ali formar a primeira reitoria da UFSC, o imóvel pertencia a Meta Hoepcke filha de Carlos Hoepcke.

O Miramar nasceu provavelmente na Prainha que ficava em frente a atual Praça XV de Novembro. Depois quando foi feito o embarcadouro foi feito no correr da rua do Palácio. Este foi demolido em 24 de março de 1899.
E foi reconstruído agora em frente a Praça XV que viveu até que em 28 de setembro de 1928. Neste ano foi inaugurado o prédio que foi demolido dia 24 de outubro de 1974.






sábado, 6 de julho de 2013

Saudade do Roda

O Roda (ou A Roda) Bar
Funcionava na escadaria da Rua Trajano


O Roda Bar, localizado na Rua Trajano (esse era seu nome, por causa das muitas rodas de carroça que tinha no interior e na entrada) servia um “casadinho de camarão” sem igual e a melhor “batida de maracujá” da cidade. Entre os desconsolados habitués do boteco que desaparecia estavam o engenheiro e pintor Átila Ramos, o jornalista Oscar Berendt, o funcionário público Celso Nunes e o empresário Silvio d’Aláscio.
Segundo o professor Remy Fontana:

"O Roda Bar era realmente uma confluência, tremendo agito (...) ele era mais jovem, se bebia muito pesado ali, boteco de encher a cara mesmo"

Momento de inquietações, o período posterior ao golpe militar de 1964 e com a montagem do aparato da ditadura militar, trouxe uma grande agonia política, mas também existencial. Essas agonias se refletem na relação com o álcool, a diversão e a conversa.
Então, o Roda Bar era mais festar e beber. Era papo, muito papo.

- Mas havia um inquietação cultural, política. Já estávamos em plena ditadura militar, em um momento bem pesado, 1968, 1969, 1970. O Roda era um ponto de desafogo, de encontros de amigos.
O jornalista Jeferson Lima, a partir de informações colhidas junto ao artista plástico Átila Ramos, escreveu em um artigo:

O Roda ficava na Escadaria do Rosário, era administrado por um casal de idosos que fazia questão de manter o silêncio quando o ânimo dos habitués eram demasiadamente alterados pelo álcool.

O Roda era frequentado por Átila Ramos na década de 1960, na época estudante de engenharia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Em mais de uma ocasião, depois de beber 'algumas', o acadêmico esqueceu ali a sua pasta escolar.
Por sua vez, Celso Martins, acrescenta outras informações, a partir de suas memórias:

O Roda Bar ficava na rua Trajano, nos fundos da antiga secretaria da Fazenda e onde funciona a PMF (a área é usada para estacionamento), mais ou menos na frente da Real Color. O espaço era maior e a frequência mais diversificada - entre por volta de 1973/74 e 1976-77, período em que o Centro histórico se esvazia com a transferência de quase tudo para as imediações da Beira-Mar (os cinemas fecham, os bares também). Os estudantes que fizeram a Novembrada, quase todos, se reuniam ali.

Gerônimo Wanderley Machado, aborda Q Roda Bar por um viés duplo: - primeiro como morador da cidade e segundo como liderança estudantil:

Mas nós que eramos da cidade, eramos mais conhecidos né? Volta e meia, claro, a polícia sabia quem éramos nós, é claro que nós também íamos no Roda Bar. Muita gente ia né? E sobretudo porque tinha nossos aliados, os nossos amigos, que eram bebedores contumazes e que eram de bar (...) Se tu pegar, por exemplo, o Costa Ramos, o Bonzon, o Galloti, e vários outros que eu não tô lembrando. As pessoas que eram da cidade, iam as lideranças umas e outras nos bares, que saiam mais na rua; porque havia estudantes, lideranças, digamos assim e que não eram da cidade que também não conheciam muito bem, não eram muito bem enturmados, fora da sua turma de esquerda.

O Roda Bar surge aqui como um pedaço onde ocorria uma congregação dos estudantes da cidade. Era ali que se ia para tomar uma cerveja ou a famosa batida de maracujá, encontrar os amigos, bater um papo com os colegas, preparar-se para alguma festa. Em uma rápida entrada nesse bar:

Um ou dois lances de escadas e se deixava a calçada para entrar no O Roda Bar.

No fundo, num plano mais alto, o balcão, com bancos. As mesas eram dispostas nas laterais, com cinco ou seis fileiras de cada lado. Havia garçom. Cerveja, pinga com 'undenberg', caipira; linguincinha frita, batata frita.


Era frequentado pelos moradores da cidade – como a grande maioria dos bares existentes aqui – mas nele era permitido o acesso de estranhos, aqueles que não faziam parte das redes familiares presentes então, desde que estivessem associados a alguém conhecido.
Também nele, antes da radicalização política de 1968, ano em que a ditadura militar exacerbou seus meios repressivos, ocorriam alguns encontros das lideranças estudantis que, para descontrair um pouco, desciam do DCE, na Álvaro de Carvalho, pela Tenente Silveira, entrando na Trajano, e articulavam uma coisa ou outra no Roda. Mas mesmo com a repressão aos espaços de conteúdo público por parte do regime militar e do silenciamento político.

Percebemos – pela colocação de Celso Martins sobre a Novembrada – grande manifestação estudantil ocorrida em 1979, contrária à visita do então Presidente General João Figueiredo – que O Roda se manteve ao longo da década de 1970, como ponto referencial das esquerdas. Funcionava como uma espécie de segunda ou terceira casa para vários desses estudantes, sendo muitas vezes o lugar onde se ia para encontrar amigos que normalmente não seriam encontrados em casa em determinados momentos do dia ou da noite. Este espaço pode ser sem dúvida, referido como um "pedaço" de certa cultura urbana que viceja em Florianópolis.

Ao lado do Roda Bar, existia uma filial da Churrascaria Riosulense, frequentada por figurões da cidade. Nela dificilmente entraria um dos frequentadores do Roda Bar ou vice-versa. Havia, portanto, uma proximidade física desses espaços, mas elementos simbólicos distintos, construiram segregações geracionais e culturais, refletindo em acirradas disputas pelos espaços de lazer na cidade.
Afinal, os grupos sociais conservadores também mantinham seus bares em lugares demarcados. Significava, em todo caso, uma demarcação de diferenças em relação às camadas populares e às novas gerações de estudantes de classe média.


Mas esses espaços se cruzavam constantemente. Muitas vezes um ao lado do outro, era comum o encontro de políticos, estudantes, boêmios, entre outros, pelas ruas da cidade quando esses se dirigiam aos seus espaços.

  “O fim foi aos poucos, porque a Celesc cortou a energia os clientes frequentavam o local sob a luz de lampiões e obrigou os donos a sair comprando água e cerveja na redondeza para não frustrar os clientes”.
 Carlos Dutra e dona Iraci, os proprietários, sempre tiveram cuidado com a ordem e a disciplina, e eram admirados pela freguesia. No final, eles fizeram questão que todos levassem para casa as rodas e os lampiões como souvenires.
Quando já não havia outra saída a não ser fechar o Roda Bar, seus proprietários e os frequentadores mais assíduos decidiam prestar uma homenagem ao estabelecimento. Fizeram discursos emocionados e até os mais discretos e retraídos caíram no choro com o fim melancólico.
No final, os proprietários fizeram questão que todos levassem para casa as rodas e os lampiões como souvenires.



sexta-feira, 5 de julho de 2013

Réplicas da Ponte

Réplicas da Ponte Hercílio Luz


A beleza da Ponte Hercílio Luz foi reproduzida em três réplicas ao longo da história, duas em ouro e uma em madeira. As histórias dessas miniaturas são cheias de polêmicas e curiosidades, assim como a história da própria ponte.

- A primeira, em madeira, tinha 18 metros, e foi feita só para que o governador Hercílio Luz pudesse fazer a inauguração simbólica, já que devido à sua saúde comprometida, dificilmente sobreviveria para ver a ponte verdadeira pronta.

- A segunda réplica é uma jóia em ouro de 33 centímetros, que em 20 anos só foi exposta duas vezes.
A obra fica trancada em um cofre.

- A terceira miniatura foi feita pelo mesmo ourives, Juan Alves, como forma de protesto, para que a réplica possa ser exposta para visitação dos catarinenses e turistas.

Só para o governador
A primeira réplica da Ponte Hercílio Luz foi feita antes mesmo de sua inauguração.
E foi a única ponte que o idealizador da obra, governador Hercílio Luz, viu antes de sua morte. Foi construída exclusivamente para que ele realizasse a inauguração simbólica, já que pelo seu estado de saúde, havia o risco dele não estar vivo para presenciar a inauguração.

Em madeira, com extensão de 18 metros, ela foi colocada entre o Miramar e a Praça XV, no Centro da Capital. O governador atravessou apoiado em uma bengala, já muito doente, naquele que foi seu último ato público, em 8 de outubro de 1924. Após 12 dias, morreu devido ao câncer.


A ponte de 5 mil toneladas de aço, que começou a ser construída em setembro de 1922, estava com as torres erguidas e iniciava o processo inovador de montagem do vão pênsil.

No dia 13 de maio de 1926, a chamada “colosso de aço” foi inaugurada para suportar trens, veículos, pedestres e uma tubulação de água. Já a miniatura em madeira foi demolida após a inauguração e o único registro fotográfico que se tem conhecimento está no livro Hercílio Luz

Poucos Viram a Jóia da Coroa
Ela é uma espécie de “jóia da coroa”. 
Em 20 anos, só foi exposta duas vezes, tamanha o seu  valor de uma réplica da Ponte Hercílio Luz em ouro, com acabamento em prata e sobre uma base de pedra ágata, sobreposta a uma estrutura de madeira cedro. A obra, que pertence ao governo do Estado, está guardada em um prédio público da Capital, dentro de um cofre de segurança.

Em 1989, o ourives argentino Juan Alves reproduziu a ponte em 33 centímetros, com 127 gramas de ouro 18 quilates e 106 gramas de prata 950. 

A primeira vez que os catarinenses tiveram a oportunidade de conhecê-la foi em 1991, quando chegou ao Palácio Cruz e Sousa, em Florianópolis. Foi apenas um dia de visitação e a réplica foi guardada.

A partir daí, ninguém mais soube onde estava. Teve gente duvidando que ela existia ou que havia sumido. O próprio ourives Juan Alves diz que foi até o Palácio, mas não teve informações.

– A peça foi feita por mim. Por isso, tenho direito de ver. Mas, mesmo assim, nunca vi a minha obra exposta.

Neste ano, a “jóia” reapareceu em público na comemoração do centenário da casa de campo do governador Hercílio Luz, em Rancho Queimado. A réplica, porém, só foi observada por políticos e familiares. Segundo o presidente da Fundação Catarinense de Cultura (FCC), Joceli de Souza, para o deslocamento da peça da Capital até o local foram necessárias duas viaturas do Batalhão de Operação Especiais e segurança especial na casa de campo.

Souza disse que a peça nunca foi avaliada, mas o valor histórico é incalculável. Por enquanto, a peça deve continuar “escondida”, pois não há aparato de segurança para permitir a visitação.

– É preciso colocar detector de metal na entrada da sala, segurança 24 horas e mobiliário blindado.
A proposta dele é reestruturar o Palácio Cruz e Sousa para colocar a réplica para visitação do público.

A original

A cópia fiel

Foi a vontade de ver a réplica da Ponte Hercílio Luz exposta ao público que fez o ourives Juan Alves, 57 anos, autor da primeira miniatura, criar outra peça idêntica. 

Foram mais de 514 horas de trabalho para transformar 127 gramas de ouro 18 quilates em uma obra de arte. Alves é argentino, mas já vive na Capital há 22 anos. 

Ele tem uma admiração especial pela Ponte Hercílio Luz e ficou decepcionado com o fato da sua criação ficar longe dos olhos do público e também dos dele.

– A peça é minha e tenho que pedir para ver. Fiz a segunda réplica só de birra.
A ponte é nossa identidade.

Paris tem a Torre Eiffel.
O Rio de Janeiro, o Cristo Redentor.
E Santa Catarina, a Hercílio Luz.

Em 2009, um aluno de seu curso de jóias, diante da frustração do professor de não ver sua obra exposta aos catarinenses, ofereceu a matéria-prima para fazer a réplica.

Ele é o proprietário da Moulin Rouge Joalheria, localizada em um shopping da Capital. 
O custo da matéria-prima – que levou além do ouro, 106 gramas de prata 950, pedra ágata e a madeira nobre – foi de R$ 14 mil, sendo R$ 7 mil só de ouro.

– Quero vender a peça para alguém que tenha vontade de colocá-la para visitação. Não precisa de um esquema de segurança, porque se derreter a peça para vender o ouro, não terá tanto valor. O custo dela é histórico. É uma obra de arte – defende.

Nota:
- Ele tentou vender a peça para a Câmara dos Vereadores de Florianópolis e a Assembléia Legislativa, mas por causa da burocracia, não conseguiu apresentar a obra para a direção dos órgãos.

– Nem que me ofereçam R$ 100 mil, eu não faria outra. É uma obra cara e trabalhosa. Dizem que a Ponte Hercílio Luz pode cair. Daqui a pouco, só vai ter a minha réplica para lembrar.

Alves vai realizar seu sonho e expor a peça no aniversário da Ponte Hercílio Luz, no dia 13 de maio, na joalheria. Além disso, o artista gostaria de ver a sua inspiração aberta para o trânsito de veículos de passeios e fluxo de pedestres.

Fonte:
Publicado em Ponte Hercílio Luz por Daniel, biólogo em 08 de maio de 2011


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Modais Viários - Em Montagem


Terminais de Ônibus de Florianópolis

1902

1905

1930

1933

1940

1980

Cais Rita Maria
- Junto ao Cais Rita Maria, antes da construção da ponte Hercílio Luz, para ir ou voltar do continente era necessário embarcar no vapor e navios para fazer o traslado, na chagada nos dois lados outros veículos faziam o transporte para deslocamento das pessoas, século XIX e início do XX.

Cais Miramar e Praça Fernando Machado
- Foi o primeiro local utilizado como terminal urbano para bondes (puxados por mulas), ônibus e os carros a cavalos, na primeira metade do século XX.

Terminal do Largo dos Fagundes
- Terminal urbano na atual Praça Pio XII.

Terminal Urbano do Palácio do Governo
- Para as linhas intermunicipais, dos municípios de Palhoça, Santo Amaro da Imperatriz, Rancho Queimado e Angelina, ao lado do antigo Palácio do Governo.

Terminal Urbano Cidade de Florianópolis
- Terminal utilizado para as linhas municipais de Florianópolis, Sul, Leste, Oeste da Ilha, e Sul e Norte dos bairros do Continente.
Atualmente é utilizado para algumas linhas de São José, Biguaçú, e todas as linhas de Santo Amaro da Imperatriz.

Terminal Urbano do Mercado
- Terminal utilizado para as linhas do Norte da Ilha, município de São José e Palhoça.

Terminal Urbano provisório
- No estacionamento do terminal Rita Maria, durante a reforma na década de 1990 do Terminal Mercado.

Terminal Urbano junto ao Parque do Aterro
- Terminal utilizado para as linhas dos municípios de São José e Biguaçú.

Terminal TICEN
- Terminal Integrado Centro, construído em (...) dentro do sistema integrado de transporte, localizado no parque do aterro, ao lado do Terminal Rita Maria.
Os Terminais de Ônibus são padronizados, bilhetagem eletrônica, sem tarifa única, com toda a estrutura de apoio e serviços, proporcionando conforto e qualidade aos passageiros. O sistema integrado não funciona totalmente como idealizado e existem estações de transbordo desativadas.
Atualmente é utilizado por todas as linhas municipais de Florianópolis e algumas linhas intermunicipais de São José, Biguaçú, Palhoça.

Terminais Integrados nos Bairros:
- Saco dos Limões – Sul da Ilha
- Rio Tavares – Sul da Ilha
- Lagoa da Conceição – Leste da Ilha
- Canasvieiras – Norte da Ilha
- Santo Antonio – Norte da Ilha
- Trindade – Oeste da Ilha
- Capoeiras – Sul do Continente
- Jardim Atlântico – Norte do Continente

Transporte Executivo

Farofinhas
Antigo nome dos lotações diferenciados, feito por micro ônibus durante as temporadas de verão em Florianópolis, eram autorizados para as praias da Ilha, estes micros em rotas estabelecidas pela Secretaria de Transportes para dar apoio ao sistema de transporte coletivo deficitário da década de 1990, os farofinhas foram substituídos pelos Amarelinhos, a tarifa era superior a do ônibus.

Amarelinhos
As lotações, chamados de Amarelinhos (transporte executivo diferenciado), que fazem rotas distribuídas por bairros e praias de Florianópolis (na Ilha e Continente), tem terminais distribuídos em calçadas do Centro de Florianópolis, as mesmas empresas de transporte coletivo fazem o transporte executivo, tem tarifa diferenciada proporcional a tarifa do coletivo comum.

Empresas de Ônibus

Municipais:
Canasvieiras – Atende linhas dos bairros e praias do Norte da Ilha.
Emflotur – Atende linhas dos bairros do Norte Continental.
Insular – Atende linhas dos bairros e praias do Sul da Ilha.
Limoense – antiga empresa que fazia as linhas – Saco dos Limões, Caieiras, Aeroporto, vendida para a Ribeironense.
Ribeironense – antiga empresa que fazia as linhas do Sul da Ilha e a linha Abraão do Continente, vendida para a Insular.
Trindadense – Atende as linhas dos bairros e praias do Centro e Leste da Ilha.

Empresa de Ônibus Mista (atende linhas municipais e intermunicipais):
Estrela – Atende as linhas dos bairros do Sul e Oeste do Continente, e o Sul do município de São José.

Intermunicipais:
Biguaçú – Atende as linhas do norte do município de São José e do município de Biguaçú, do município de Antonio Carlos e do município de Governador Celso Ramos.
Imperatriz – Atende as linhas do município de Santo Amaro da Imperatriz e do município de Rancho Queimado.
Jotur – Atende as linhas do município de Palhoça e do Sul do município de São José.
Paulo Lopes – Atende as linhas das praias do Sul do município de Palhoça e dos municípios de Paulo Lopes e Garopaba.
Santa Terezinha – Atende linhas do Oeste do município de São José e do município de São Pedro de Alcântara.

Mobiliário Urbano

Abrigos de Ônibus
Na administração da Prefeita Ângela Amin, os abrigos para pedestres houve uma padronização que não existia, e todos os pontos de parada receberam um abrigo coberto, em modelo padrão, com banco e fechamento lateral por motivo dos ventos fortes que eventualmente circulam pela cidade, verão quente, inverno frio.

Traslado

Os carros de alugueis
Onde estão todos aqueles carros de passeio a cavalo da Praça Fernando Machado.

Carros de Alugueis
Antigos coches puxados por cavalos que saiam da Praça Fernando Machado.

Táxis
Os Táxis de Florianópolis eram todos na cor branca, na administração da Prefeita Ângela Amin, os táxis continuaram brancos, mas com uma faixa quadriculada azul e branca e uma faixa lisa vermelha, cores do município.
Foram criados pontos padronizados, fixos especiais cobertos e fechados com bancos.

Intermunicipal e Estadual

Rodoviária de Florianópolis
Antiga estação, na Avenida Hercílio Luz com Avenida Mauro Ramos.

Terminal Rodoviário Rita Maria

Floripando

Décadas de Florianópolis

Meditações sobre a Cidade
Para quem, através de leituras, fotografias e, mesmo, lembranças, se detém na imagem de Florianópolis da última década do século XIX até meados dos anos cinqüenta do século XX, há de admirar-se e até de espantar-se pelo tanto que cresceu esta cidade, se comparado aquele período com o que se lhe tem seguido até hoje, mais precisamente a partir dos anos sessenta.
As mutações por que passam os lugares onde nascemos ou criamos raízes e nos quais nos deixamos estar, por princípios ávidos de acomodação, são semelhantes, “mutatis mutandis”, às mutações da moda. Quase não as percebemos e nos parecem corriqueiras no seu discreto passar e no seu constante evolver.
Se compararmos com imagens do passado, muitas vezes não tão longínquas (fotografias e filmes), o espanto é grande:

Em 1940, o Estreito não possuía nenhuma rua com calçamento.

A Avenida Mauro Ramos também não era calçada.

Em 1940, nas tardes ensolaradas, descia-se a Rua Esteves Júnior, cheia de casarões, chácaras e outras belezas. Um ar de modorra ali pairava. Um silêncio benfazejo, assustado aqui e ali pelo canto dos pássaros e pelos assobios do vento nordeste, que se encanava por ali, vindo da Praia de Fora.

Atravessava-se calmamente a Avenida Rio Branco sem calçamento, a única via que tinha o topete de cortar a Rua Esteves Júnior.
Automóveis, nenhum!
Deserto também de gente. Um ou outro gato pingado, perdido naqueles caminhos.

Chegado ao Jardim do Katcips (bem que poderia ter esse nome), você dobrasse à direita, lá ia pela Rua Bocaiúva a fora “Praia de Fora” faceira; berço da aristocracia.
Sempre sobre o chão de terra, você alcançava a Agronômica, a Penitenciária, a Trindade...
Se dobrasse à esquerda, entrava na bucólica Rua Almirante Lamego, antiga “Rua de Sant'Ana”, também com leito de terra.
No fim desta, as cercanias da Praia do Müller era quase uma floresta. Ali podia esconder-se até o crime.
- Foi o que ocorreu, pouco antes de 1940, com uma pobre mulher, que teve o seu corpo barbaramente esfaqueado, nunca se soube por quem.
O ambiente deserto fora propício ao crime perfeito.

A Rua Presidente Coutinho, também sem calçamento, era praticamente mato só. Quem se lembra da “Capitoa”, pobre mulher, mas rica reprodutora de crianças de todas as cores, que a seguiam como um batalhão pelas ruas da cidade a guerrear a fome com as armas da esmola...
O batalhão da miséria era alvo predileto da chacota popular.
Pois, a Capitoa tinha ali o seu barraco, quase na esquina com a Rua Nereu Ramos.

Um dos lugares mais solitários era a Praça Getúlio Vargas. Hoje, aliás, ainda conserva um toque de soledade.

O Largo Fagundes parecia, com raras exceções, a Praça da Enseada do Brito, deserta.

A Felipe Schmidt acabava, como rua, no atual prédio da Família Amin Helou.

A Rua Hoepcke, hoje calçada, era a maior perambeira que já se viu nesta cidade. Os que a tinham de subir ou descer bem podiam receber a medalha de alpinistas.

A Estrada do Saco dos Limões empatava com as de desenho animado, um caminho difícil e tortuoso.

Em 1945, o Estreito parecia uma cidadezinha de faroeste americano.

Em 1953, não havia nem sombra de Estação Rodoviária junto à Maternidade Carmela.

Nos anos 1960, a freqüência da elite elegante no Clube 12 de Agosto ou Clube Lira.  

O Campo do Manejo (Largo General Osório), talvez há mais de um século com a mesma área e casario, ainda teria de esperar quinze anos para dar lugar ao atual Instituto Estadual de Educação.
Por quase todo esse tempo, viveu cercado por alta parede de tábuas. Sobre esse local, permitam-me contar-lhes um fato pitoresco:
- Quando o presidente da República Getúlio Vargas aqui esteve a inaugurar o Grupo Escolar do Saco dos Limões, o interventor Nereu Ramos o levou a visitar aquela área, onde já se visava construir o novo Instituto de Educação. Ali chegando a comitiva, o presidente viu alguns garotos a disputar uma “pelada”. Amigo das crianças chamou os garotos e lhes disse mais ou menos isto:
- “O Doutor Nereu me disse que vai mandar construir aqui uma grande escola e para isso vai ter de cercar todo este largo. Como farão vocês, então, para jogar o seu futebol?”.
Um dos garotos não titubeou:
- “Nós pulamos a cerca”.

- Tudo isto e mais alguma coisa, virou em tão pouco tempo um passado que parece século. No entanto, pouco foi o tempo em que a cidade - que para muitos nunca sairia do seu provincianismo material, por ser terra de funcionários públicos - saiu da sua letargia, contornou e subiu o Morro do Antão, afogou o Estreito e, não achando mais chão, está subindo aos céus e conquistando o mar.

Crônica originalmente publicada no jornal O Estado, extraída do livro "Painéis", editado pela Fundação Catarinense de Cultura em 1982.
Abelardo Souza nasceu em Florianópolis em 18 de fevereiro de 1920 e morreu em 1986. Foi professor e inspetor geral do ensino (mestre-escola) em Santa Catarina. Era também músico, autor de hinos, canções e marchas carnavalescas.

O Governador Construtor

COLOMBO MACHADO SALLES
Foi governador nomeado do Estado de Santa Catarina e construiu a ponte de nome próprio - Colombo Salles adverte para os riscos de estrangulamento urbano em Florianópolis.

"A Capital exige planejamento cauteloso"

Estar no lugar certo na hora certa. Talvez essa condição de causa-e-efeito tenha sido determinante para que o engenheiro Colombo Machado Salles, um homem tímido, mas respeitado profissionalmente, inscrevesse seu nome em definitivo na História de Santa Catarina. Graduado pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Paraná, especializado em portos, vias e canais, ingressou no serviço público federal mediante concurso público e galgou os mais importantes postos em sua especialidade, chegando à direção do Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis. Além disso, implantou a estrutura administrativa que daria origem ao Governo do Distrito Federal e foi professor de universidades em Goiás, Brasília e Santa Catarina.
Em 1970, foi surpreendido com a notícia de que seria o novo governador de Santa Catarina, o primeiro eleito de forma indireta, em substituição a Ivo Silveira. Antes mesmo de assumir, já tinha uma determinação: - construir a segunda ligação entre a Ilha de Santa Catarina e o Continente.
Ponte inaugurada em 08 de março de 1975 e que receberia seu nome.

- Nesta entrevista exclusiva para o jornal “A Notícia”, concedida no dia 06 de janeiro de 2005, o ex-governador faz revelações sobre a casualidade que o levou à atividade política, sobre os principais eventos relacionados à construção da ponte e, ainda, sobre as decepções que marcaram sua vida, principalmente quanto ao aterro da Baía Sul.

- A Notícia – Quando é que o senhor percebeu a necessidade de uma segunda ponte entre a Ilha de Santa Catarina e o Continente?
- Colombo Salles – Foi em janeiro de 1969. Eu trabalhava no Ministério dos Transportes, ligado diretamente ao ministro Mário Andreazza. Um dia ele me chamou e disse:
- “Tenho aqui uma correspondência oficial vinda do Itamaraty. Está lacrada. Eu sei o que é”.
Respondi-lhe:
- “Se está lacrada, não quero saber”.
Então ele me deu a determinação:
- “O senhor vai a Santa Catarina, entregar ao governador do Estado, doutor Ivo Silveira. Vai para casa agora e não comenta isso com ninguém”.
Voei num avião da Cruzeiro do Sul que ia direto para a capital catarinense. Quando eu abri o Jornal do Brasil, o conteúdo da minha correspondência estava todo ali. Chegando a Florianópolis, fui para o Palácio da Agronômica. O governador já tinha lido o jornal.
Quando lhe entreguei a correspondência secreta ele disse:
“Acho que já conheço o conteúdo”. Abriu.
Era do Ministério das Relações Exteriores comunicando que havia ocorrido problemas em duas pontes nos Estados Unidos (Silver Bridge, sobre o rio Ohio, e St. Mary Bridge, em West Virginia), similares à Hercílio Luz. Eram pontes pênseis projetadas para rodovia e ferrovia. Era um modelo só, com um cálculo só. É ponte só na travessia do canal, com dois viadutos laterais. Essa ponte do canal era sustentada por barras que têm um pino no meio. Lá nos Estados Unidos houve uma ruptura desse olhal que ligava as duas hastes.

- AN – Os catarinenses, então, corriam o risco de perder a única ligação da capital com o continente?
- Colombo – Como das três só tinha ficado de pé a Hercílio Luz, o Ministério achou por bem recomendar uma vistoria. Entreguei a correspondência para o governador. Minha missão foi cumprida. Fui a Laguna e voltei a Florianópolis. O governador me disse que ia se dirigir diretamente ao presidente da República. Mais tarde Mario Andreazza me disse que Ivo Silveira havia feito uma exposição de motivos ao presidente da República, pedindo dispensa de concorrência pública para construção de uma outra ponte. Não vi o texto, só soube pelo ministro.

- AN – O senhor continuou em Brasília?
- Colombo – Não. Andreazza me mandou para Santa Catarina, para trabalhar no Governo do Estado. O ministro queria o meu apoio no Estado para a sua eventual candidatura à Presidência da República. Ivo Silveira me nomeou para o Plameg (Plano de Metas do Governo). Três meses depois, recebi um telefonema de Andreazza, me convocando de novo para Brasília, onde assumiria a diretoria do DNPVN. Era o auge da minha carreira, o ponto mais alto. Pedi demissão do Governo do Estado e assumi o departamento. Tempos depois, fui convidado para dar uma palestra em São Paulo, cujo tema era justamente a minha especialidade técnica. Quando eu estava no meio da exposição, o presidente do diretório acadêmico surgiu e me interrompeu. Quando a gente está fazendo uma exposição numa universidade e surge no meio o presidente do diretório a gente pensa:
- “Dei uma bola fora”.
Pior ainda, o assunto não era muito bem recebido pela população. O rapaz disse:
- “Eu estou interrompendo porque a Hora do Brasil acaba de anunciar que o nosso palestrante foi indicado para a eleição indireta, pela Assembléia Legislativa, para o Governo do Estado de Santa Catarina”.
Me preparei para uma vaia.

- AN – Foi aí que o senhor soube?
- Colombo – Foi. Eu soube pelo estudante. Nunca ninguém me falou quem teria sido o responsável. Sabia que o doutor Muniz Aragão (secretário da Saúde do governo Ivo Silveira) era candidato, e ele era um homem muito correto. Pronto para ouvir uma vaia depois que o líder estudantil falou, para surpresa minha, fui aplaudido. Aí acabou a palestra, acabou tudo. Voltei para casa no dia seguinte e depois fui falar com o Mario Andreazza. Ele disse:
- “Vai deixar o cargo que você gosta para ocupar um cargo político?”.

- AN – Quem escolheu o senhor?
- Colombo – Não sei. Desconfio.
O Andreazza dizia:
- “Você está maluco”.

- AN – Mas não foi o Andreazza?
- Colombo - Não foi ele.

- AN – O senhor procurou saber?
- Colombo – Sim. Mas fui ao presidente da República Emílio Médici, ele não me disse nada.
Presidente, meu último ancestral político foi o Lauro Müller, irmão da minha avó. E o Felipe Schmidt, que era primo do meu pai. Meu pai não teve atividade política e eu fui criado na geração do Getúlio Vargas, quando, como o senhor sabe, não havia manifestação política, não havia nada. Nunca me envolvi em política. Nunca assisti um comício. Ele olhou para mim e disse:
- “Eu também não”.
Presidente, o que é que eu faço?
- “Vai trabalhar, vai”.
Ele me tratava com muito carinho. Fizeram muita injustiça com ele, Médici não era esse homem de quem falam, de “era de chumbo”. Governei Santa Catarina durante quatro anos, nunca ninguém foi agredido com atos, gestos, palavras, ninguém foi preso.
Tinha uns processos na CGI, duas personalidades importantes. O almirante estava sozinho aqui, convivia muito com agente, fizemos amizade. Um dia, uma personalidade daqui, de muito respeito, me procurou, triste porque tinha um processo na Comissão Geral de Inquérito (CGI) contra ele. Um industrial de Blumenau também estava sendo investigado.

- AN – Quais eram os nomes?
- Colombo – Embora já tenham morrido, prefiro não citar os nomes. Falei para o almirante sobre o que havia na CGI. Nada. No outro dia, me telefonou. Um deles era uma situação tão absurda, que mandei eliminar. O outro era problema de recolhimento de impostos. A pessoa recolheu tudo certo.

- AN – Já havia um projeto para a ponte quando o senhor assumiu?
- Colombo – O projeto do aterro da Baía Sul é de minha autoria. O governador Celso Ramos (administrou o Estado no período de 1961 a 1965) gostou muito, conseguiu a aprovação e na transferência dos documentos do ministério da Viação e Obras Públicas (depois Transportes), do Rio para Brasília os documentos desapareceram. Quando eu assumi, o aterro já estava aprovado. Como eu tinha sido presidente do conselho de administração da Companhia Brasileira de Dragagem, na qualidade de diretor geral do DPVN, consegui imediatamente a draga. Muito antes de começar a construção da ponte, o aterro já estava quase pronto. Com o projeto do aterro, já fizeram também o planejamento para duas pontes e o projeto dos túneis. Tinha recursos para isso, que foram utilizados para ampliar a Beira-Mar Norte. Não quis começar o aterro do Saco dos Limões (Via Expressa Sul) porque não ia terminar, era uma questão de ética.

- AN – É certo afirmar que o aterro não seguiu o projeto original?
- Colombo – Como tinha esse aterro, eles projetaram duas pontes, que se chamariam Paulo Fontes, que projetou o primeiro aterro e Gustavo Richard, que era o vice-governador de Lauro Müller. Foi feito então um projeto de ocupação do aterro. Era muito bonito, foi aprovado pela lei federal 5.013, de 9 de outubro de 1974. Foi revogado pela lei 5.483 de 9 de outubro de 1978, da Assembléia Legislativa. Foi revogado porque a Câmara dos Vereadores de Florianópolis não aprovou o projeto, deixou em banho-maria. Haveria um centro comercial, que manteria todo o sistema comercial. Hoje está uma balbúrdia no trânsito, porque o comércio grande está se deslocando. Havia um projeto de um shopping, onde haveria local exclusivo para o comércio. Havia uma parte de edifícios um centro administrativo oficial. Havia uma parte para escritórios, outra para residências de pessoas de baixa renda, para não gastar com transporte, e uma área reservada para um centro ecumênico.

- AN – Por que a Câmara de Vereadores não aprovou?
- Colombo – Esse projeto chegou à Câmara de Vereadores e foi bombardeado. O vereador Valdemar da Silva Filho (Caruso) dizia que o aterro era “o enterro do Desterro”. Por causa da oposição, que dizia que afastei Florianópolis do mar, a Câmara não aprovou. Outros governadores fizeram modificações posteriores. Tenho um carinho especial pelo aterro, porque nasceu da minha cabeça, mas virou uma balbúrdia.

- AN – Não havia outra solução?
- Colombo – Foi um problema econômico também. Economizamos um vão de ponte, a ponte ficou mais curta, mais barata. Sabe qual é a profundidade das fundações? Nove metros de água e 70 metros de argila orgânica. Desci várias vezes para conhecer os trabalhos. As fundações são caras e é a parte que não aparece.

- AN – E aquela estação de tratamento de esgotos? Havia alguma previsão?
- Colombo – Havia um projeto de esgoto, comprei várias áreas de decantação, não sei porque não executaram. Aí resolveram colocar o esgoto no aterro. É uma pena, na entrada na cidade.

- AN – O fim do Miramar é motivo para lamentação na capital. Como é que isso ocorreu?
- Colombo – Ali não dava para chegar, era lodo puro, não dava para usar. Quando a maré subia, chegava nas lojas. Sou muito criticado por causa do Miramar. Mas o Miramar caiu, não foi derrubado. Era um trapiche coberto, não tinha estilo, não tinha nada. Era freqüentado por pessoas sem muito conceito. À noite ninguém ia ali. Cheguei a limpar o local, fiz várias exposições, não ia ninguém, porque quem freqüentava não tinha bom conceito. Quando veio a draga, a estrutura foi abalada.
Muitos dos que criticam o Miramar nem conheceram o trapiche.

- AN – Como é que o senhor avalia o futuro de Florianópolis?
- Colombo – Urge a necessidade de uma revisão de planejamento cauteloso, com base em pesquisas e competência para o futuro. A desordem grassou aqui, cresceu, e hoje está difícil dirigir pelas ruas projetadas, antigas. Há necessidade de um sistema viário secundário, como a via expressa, que tem um ramo que liga à Beira-Mar Norte (Rua Antônio Edu Vieira). Ela foi projetada para ser a continuação da Via Expressa. Tem que encontrar outra solução.

- AN – O senhor saiu do governo frustrado com alguma coisa?
- Colombo – No setor de transportes, de todos os 25 projetos que tinha para realizar, o único que não concluí foi o da BR-282. Mas a estrada longitudinal ligando São Miguel do Oeste a Lages só foi possível porque fizemos de Rio do Sul a Campos Novos. Então, houve um dispêndio que não estava previsto no projeto. E até hoje não concluíram a BR. Isso me decepcionou. Também o processo não foi debatido.
A Câmara de Vereadores me decepcionou não aprovando a urbanização do aterro.

“A Cidade teria outro aspecto.”

Entrevista publicada em 15 de março de 2005 – No jornal A Notícia – Suplemento especial sobre os 30 anos de inauguração da Ponte Colombo Salles


Florianópolis e o Cinema
“O Preço da Ilusão”
do Grupo Sul

 “O Preço da Ilusão”, o primeiro longa-metragem rodado na capital catarinense, em 1957, sob a responsabilidade do Grupo Sul.

Imagine-se viver numa cidade como Florianópolis, há 50 anos, com uma população ultraconservadora e provinciana – não ultrapassando a casa dos 80 mil habitantes. Naquele tempo ainda havia carros-de-cavalo de aluguel, os carrões dos playboys, o Miramar, o porto e uns poucos arranha-céus de 10 andares. As moças ainda faziam o “Footing” em torno da Praça XV e usavam vestidos que lhes escondiam os joelhos. Rapazes e Senhores envergavam seus ternos, usados de preferência com uma camisa branca e com uma gravata preta, fininha – capazes de causas “Oh’s” de admiração nas moças.

Florianópolis era pacata, até, recatada: parecia parada no tempo, avessa a mudanças.
Mas só parecia.

Esta seria, é claro, a primeira impressão de algum incauto observador que enxergasse apenas a superfície da cidade. Sim, pois nem tudo era pacato e nem tudo cheirava a atraso e monotonia:
Mas, havia o Grupo Sul e uma inquietação anormal, um grupo que, em fins da década de 1940, empurrara o ranço parnasiano da Ilha para o purgatório, trazendo, para a antiga “Exiliópolis” do século XIX, um movimento que transformara a arte e a cultura brasileira no princípio dos anos 1920 com o Modernismo.
Para aquela pacata e provinciana Florianópolis, o florescimento de inquietações incomuns representava, sem dúvida, uma ameaça às estruturas culturais convencionais, conservadoras e distantes da realidade, Bem Distantes!.
Temia-se o Grupo Sul como se teme o vento Sul, que sempre traz frio, chuva e certa insegurança. Daquele grupo de rapazes e moças, inquietos e renovadores, nasceria todo um trabalho em prol da cultura de Santa Catarina, até então estagnada e alienante.

REVISTA SUL
Um dos grandes produtos do Grupo Sul foi a revista Sul, de literatura e debate, editada ininterruptamente durante dez anos e responsável pela difusão da cultura catarinense em todo o mundo. Dos escritores que iniciaram publicando trabalhos na Sul muitos adquiriram projeção nacional e internacional. É o caso de Salim Miguel, Silveira de Souza, Eglê Malheiros, Aníbal Nunes Pires, Glauco Rodrigues Corrêa, Hugo Mund Jr., Walmor Cardoso da Silva e outros. Rompia-se, de fato, com uma literatura arcaica, provinciana e conservadora e partia-se para uma literatura participante, profundamente vinculada à vida, ao real.

ARTE MODERNA
A revista Sul constituiu apenas uma parte do trabalho do grupo. Paralelamente, aqueles rapazes e moças iniciavam outra atividade: o teatro, que revelaria nomes como Ody Fraga e Silva que, mais tarde, viria a ser um bem-sucedido diretor de cinema brasileiro. Também no cinema poderia ser citado Marcos Farias, integrante do grupo.
Nas artes plásticas – outra atividade constante do Grupo Sul – seriam revelados nomes como os de Hassis, Ernesto Meyer Filho, Dimas Rosa, Aldo Nunes e Hugo Mund Jr. O grupo se fortalecia, inquietava a cidade. Ao mesmo tempo, criava-se o primeiro museu de arte moderna do país e redescobria-se Martinho de Haro.

CINE-CLUBE
Ainda em fins da década de 1940 surgiria em Florianópolis o primeiro cine-clube de sua história, projetando na época os maiores filmes do cinema mundial. Trazia-se para a pacata Ilha realizações de diretores que, à época, revolucionavam a sétima arte, introduzindo novas formas de pensar a realidade. Assim, os habitantes da cidade, acostumados com a ingenuidade das produções da Atlântida e de Hollywood, começaram pouco a pouco a tomar conhecimento de nomes como Vittorio de Sica, Orson Welles, Alberto Lattuada e outros.
Na Revista Sul iniciavam-se discussões sobre a função do cinema e do cine-clube. No Rio de Janeiro, Nelson Pereira dos Santos acabava de rodar “Rio 40 Graus” – um marco na história cinematográfica nacional, já que representa o início de uma nova fase para a Sétima Arte no Brasil: o Cinema Novo. O filme partiu de uma idéia de Arnaldo Farias de fixar os mais variados aspectos da cidade, tendo como ligação alguns pequenos vendedores de amendoim. Nelson Pereira dos Santos formou uma espécie de cooperativa, colocando um novo tipo de produção, tanto em método como em proposta.

O PREÇO DA ILUSÃO
A proposta do cinema novo atingiu Santa Catarina e, diretamente, o Grupo Sul. Repentinamente, surgiu a idéia de realização de um filme, aqui, na Ilha, como resposta ao “Rio 40 Graus” de Nelson Pereira dos Santos, mostrando identicamente, alguns aspectos da cidade. O grupo discutiu e partiu para a prática.
Dizia Salim Miguel à revista Panorama, do Paraná, em 1958:
- “A idéia de se abandonar a teorização para a prática vinha de longe. Chega um dia que as salas escuras não bastam. Há necessidade da pessoa que se interessa por cinema se experimentar, fazer também suas tentativas. Debates, discussões acaloradas em torno desta ou daquela escola, análise de filmes, tudo conduzia os mais inquietos, canalizava aquele esforço e aquela pesquisa para um determinado fim”.

O grupo se organizou e pediu o apoio de intelectuais experientes na área, como Nilton Nascimento e E. M. Santos, vindos respectivamente de Porto Alegre e São Paulo. Com a ajuda financeira de pessoas da cidade e com um crédito obtido através do Banco do Estado de São Paulo, constituíram a Equipe Cinematográfica Alberto Cavalcanti, da Sul Cine-Produções, e lançaram-se à aventura – “ousadia”, no dizer de Eglê Malheiros – de fazer um filme em Florianópolis, em 1957. E fizeram “O Preço da Ilusão”, uma idéia ambiciosa, segundo Eglê, mas que representou o esforço do Grupo Sul para acompanhar os passos iniciais daquele movimento que revolucionaria o cinema brasileiro.

CRÔNICA DE UMA CIDADE
“Contando apenas com dois papéis centrais”, dizia Salim Miguel à mesma revista Panorama em 1958, “e cerca de 80 pessoas com participação de importância relativa, além de centenas de figurantes, pode-se dizer que os verdadeiros “artistas do filme” são a cidade de Florianópolis e a ponte Hercílio Luz. Praias, ruas, bares, becos, recantos pitorescos, praças e jardins, mercado, e em especial a ponte, atravessam o filme de ponta a ponta, dão-lhe uma fisionomia própria, particular, característica. Ali, então, uma humanidade como todas, com seus sonhos e desilusões, esperanças e desventuras, se locomove. E a câmera procura captar com precisão tudo aquilo”.
Esta seria uma definição aproximada do que pretende ser “O Preço da Ilusão”: a crônica, o painel de uma cidade, através da construção de duas histórias em contraponto. Com 70% de exteriores – proposta, aliás, intencional – “O Preço da Ilusão” pretendeu ser uma aula prática do que os rapazes e moças da Sul aprenderam com o neo-realismo italiano e com o cine-novismo brasileiro, então emergente.

DESBRAVADORES
Caminhos percorridos por aqueles jovens que, na década de 1950, ousaram pôr em dúvida o marasmo e o provincianismo, construindo, com garra, o primeiro filme da história de Santa Catarina.

Fonte: Matéria publicada na edição número 67 do Jornal da Semana, tablóide que circulou em Florianópolis entre 1978 e 1980.